Primeiramente, é importante compreender que o jornalismo é uma atividade profissional que consiste em informar e estimular o senso crítico, a cidadania, a ampliação da visão de conjunto sobre o mundo em que vivemos, a partir dos fatos que ocorrem na sociedade e não podem ser apreendidos pela população em geral apenas através de seus sentidos físicos. Assim, o jornalista é mediador. E por isso, deve aprender a coletar dados, pesquisar, redigir, editar e publicar informações.

O objetivo deste artigo é apresentar rapidamente os aspectos gerais da profissão jornalística, incluindo histórico. Bem como, explicitar pontos positivos, negativos e reflexões com base na técnica da invéxis para quem desejar optar por esta carreira.

Histórico do Jornalismo

Não se sabe exatamente quando iniciou o jornalismo, mas, por exemplo, na Grécia antiga, os textos  históricos deixados por Tucídides já utilizavam alguns fundamentos da futura atividade jornalística institucionalizada (WARD, 2004). Dessa forma, a descrição fiel dos fatos, imparcialidade e concisão já eram algumas das preocupações deste historiador que escreveu oito volumes da História da Guerra do Peloponeso (que descrevem a guerra entre Esparta e Atenas), revalorizados vinte séculos mais tarde por Thomas Hobbes que os traduziu do latim para o inglês.

De acordo com Sobrinho (1997:18), a atividade para formação do periodismo se esmoreceu no feudalismo. Embora a existência de menestréis e arautos, o serviço de informações só ganhava força e se organizava para atender a demanda de notícias sobre as guerras. Dessa forma, o jornalismo surgiu aos poucos, lentamente, com o desenvolvimento das práticas que foram se aperfeiçoando aos longos dos anos.

Para muitos autores, por exemplo, Medina (1988:17), o desenvolvimento da atividade jornalística passa necessariamente pela conquista do direito à informação. “Muito se escreveu, a partir do século XVIII (com os iluministas), sobre a importância da informação e a necessidade de seu livre trânsito”. Cornu (1994:131) vai ainda mais além ao afirmar que “não há ética sem liberdade, sem capacidade de traçar a sua própria via, de escolher entre diversos caminhos abertos”. Relembra ainda que na Idade Média, que a Igreja, percebendo os perigos da invenção da imprensa, para si mesma, proibiu toda publicação (em 1487, pela bula papal Inter multiplices) sem a autorização de um bispo. Assim, as notícias se destinavam a informar os poderosos, príncipes, banqueiros ou comerciantes, restringindo-se somente, naquela época, às pessoas cultas, vinculadas ao poder.

Jornalismo e Invéxis


Liberdade de Imprensa

A primeira garantia escrita de liberdade de imprensa foi uma lei formulada em 2 de dezembro de 1766 na Suécia. Em 12 de junho de 1776, as mesmas premissas na Declaração dos Direitos do Estado da Virginia que proclamou a independência da antiga colônia britânica. Em 1791, a primeira emenda à Constituição estadunidense disporá: “O Congresso não fará nenhuma lei restritiva da liberdade de palavra ou de imprensa”. O mesmo ocorre com a Revolução Francesa que, em 26 de agosto de 1789, defende explicitamente a liberdade da imprensa. A predominância dos princípios liberais abre um novo espaço e esfera de poder entre o Executivo, o Legislativo, o Judiciário e opinião pública preenchido por uma imprensa com grande audiência. Nasce daí, a concepção de “Quarto Poder”, de origem incerta, atribuída a Edmund Burke (CORNU, 1994:176) e a Thomas Macaulay (MORETZSOHN, 2007:117).

No século XVIII até a primeira metade do século XIX, a atividade jornalística tinha um caráter essencialmente político, voltada aos debates de idéias, à expressão de opiniões. Mas evitando desagradar o menor número possível de leitores (nesta época, a tiragem dos jornais crescia a cada ano), a grande imprensa começa a buscar um estilo de neutralidade e imparcialidade no tratamento dos fatos. As determinações comerciais destas publicações, portanto, contribuíram para a predominância de outro modelo de jornalismo, que eliminou as opiniões das notícias cotidianas.

Jornalismo no contexto brasileiro

Entretanto, o Brasil foi um dos últimos países do continente americano a contar com uma imprensa, tendo como causa uma série de fatores, incluindo ausência de urbanização, burocracia estatal, analfabetismo, censura colonial.

Acresce que o jornalismo político predominou no Brasil até a década de 1960, quando atividade começou a se profissionalizar, incluindo sua estrutura administrativa e empresarial. Esta fase, predominante até hoje, foi influenciada pelo modelo norte-americano que busca formatar e homogenizar os textos para facilitar a compreensão aos leitores. Assim, começou a ser implantado o Lead, técnica que buscar concentrar as informações essenciais da notícia no primeiro parágrafo de uma matéria.

O primeiro curso de jornalismo no Brasil surgiu em 1947, na Fundação Cásper Líbero, mas somente em 1969 foi reconhecida juridicamente a necessidade da formação superior, o que profilerou os cursos universitários nos anos seguintes. Ou seja, os cursos de jornalismo surgiram décadas depois da maioria dos grandes jornais brasileiros.

Jornalismo na atualidade

Um problema dos cursos de jornalismo hoje é que grande parte deles dividem espaço na grade curricular da universidades , especialmente as particulares, com Publicidade & Propaganda (PP), Relações Públicas (RP) e Rádio & TV. Assim, um aluno opta por ingressar no curso de jornalismo, mas na verdadse entra em um curso de Comunicação Social, em que, em geral, nos dois primeiros anos, dividirá as aulas teóricas com PP e RP e nos dois últimos anos se especializará nas práticas e técnicas jornalísticas. Tal estratégia é crescente nas universidades particulares, pois reduz custos ao reunir três ou quatro cursos em uma só turma, contratando menos professores. Por isso, é preciso avaliar bem o currículo das universidades para verificar se está compatível com a expectativa do vestibulando.

Mas, felizmente existem alguns cursos de Jornalismo no Brasil (e não Comunicação Social, com bacharelado em Jornalismo), cujo foco exclusivo nos quatros anos de formação é somente nesta área. Há ainda, alguns cursos de Comunicação Social que optam por manter turmas separadas.

Em suma, o profissional formado em jornalismo está habilitado para trabalhar em jornais, revistas, televisão, rádio, internet, assessoria de imprensa (está última, curiosamente, é uma atividade profissional destinada a RP em todo o mundo, menos no Brasil).

Jornalismo e Invéxis



Cotejo com a Invéxis

Dentro da inversão existencial busca-se escolher de forma madura a profissão, de maneira que esta seja assistencial e auxilia na execução do seu propósito de vida, ou seja da sua programação existencial (proéxis). Por isso, abaixo explicita-se pontos convergentes do jornalismo com a técnica da invéxis e os pontos que se deve ficar atento no momento da decisão.

Pontos favoráveis

Aos praticantes da invéxis interessa saber três pontos positivos da profissão, convergentes com esta técnica de planejamento de vida:

1. Escrita: aprimoramento da capacidade de escrita. Os fundamentos básicos, a habilidade de escrever é desenvolvida a partir de um bom ensino fundamental (antigo primário) e de muita leitura. Não se aprende a escrever no curso, mas se aprende sim a ser mais objetivo e a saber melhorar as argumentações sem cunho subjetivo, baseado em fatos. Tal atributo contribui na elaboração de gescons.

2. Intelectualidade: o curso exige muita leitura, interdisciplinar, embora esta prioridade dependa, em primeiro lugar, do aluno. Um bom curso de jornalismo oferece diversas opções de leituras em Filosofia, Sociologia, Política, Antropologia, Literatura, Semiótica etc.

3. Senso crítico: a prática do jornalismo aprimora o senso crítico, pois para o jornalista conseguir produzir uma boa matéria, fora do trivial, ele precisa enxergar um fato de um modo menos óbvio, pesquisar com mais profundidade, estar atento a vários detalhes.

Pontos de reflexão

Por outro lado é necessário alertar aos interessados na carreira jornalística, em especial aos praticantes da invéxis, pelo menos três problemas relacionados a esta profissão:

1. Ansiedade: na minha opinião, o jornalismo não é indicado para pessoas ansiosas (não digo mais ou menos ansiosas, pois todos tem um percentual, mas realmente com o temperamento ansioso). A profissão em si já tem um ritmo diário que gera ansiedade (até para os mais calmos). Por este motivo, não são raros os jornalistas alcoolatras, tabagistas, onicofágicos, drogaditos, em crise de depressão profunda, levando a morte precoce.

2. Ética: o jornalismo é uma das profissões mais críticas e limítrofes quanto a ética, pois uma matéria (até mesmo uma palavra) pode provocar um estrago irreparável para uma pessoa ou instituição. Existe uma piada que é contada no meio acadêmico que exemplifica bem esta condição: “O médico acha que é Deus. O jornalista tem certeza que é”. A falta de humildade e de bom senso de um jornalista influente pode ser desastrosa.

3. Liberdade: o profissional recém-formado raramente tem liberdade para escrever o que quer e do modo que deseja. Ele está sujeito aos interesses empresariais e comerciais de donos com interesses políticos (muitas vezes são os próprios políticos que são donos).

Assim, antes de optar por cursar jornalismo é importante refletir sobre as afinidades com a profissão, levando em consideração as habilidades pessoais, os pontos favoráveis e os divergentes, como também o seu propósito de vida.

Por fim, para auxiliar na escolha madura da profissão, gostaria de sugerir aos interessados nesta profissão que visitem redações de jornais, revistas, televisões, leiam mais sobre o assunto ou entrevistem profissionais para tenham mais segurança na hora de decidir definitivamente por esta área.

Bibliografia

  1. CHALABY, Jean K. The invention of journalism. 1. ed. New York: ST. Martin’s Press, INC, 1998.
    2. CORNU, Daniel. Jornalismo e Verdade: para uma ética da informação. 1 ed. Lisboa: Instituto Piaget, 1994.
    3. MEDINA, Cremilda. Notícia, um produto à venda: jornalismo na sociedade urbana e industrial. 2. ed. São Paulo: Summus, 1988.
    4. MORETZSOHN, Sylvia. Pensando contra os fatos – Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico. 1. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2007.
    5. SOBRINHO, Barbosa Lima. O Problema da Imprensa. 3. ed. São Paulo: Edusp, 1997.
    6. SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1983.
    7. WARD, Stephen J. A. The invention of journalism ethics: the path to objectivity and beyond. Canada: McGill-Queen’s University Press, 2004.