Desfrutar o presente ou cuidar do futuro? Esta é a pergunta central que o livro O Valor do Amanhã, de Eduardo Gianetti, ambiciona responder. Valendo-se de um discurso filosófico fortemente embasado em economia, sociologia e biologia, o autor traz reflexões acerca da essência por detrás dos juros para explicar o valor que atribuímos ao amanhã. 

A tese principal é a de que as leis que regem o universo das finanças assemelham-se e em muitos casos tem sua origem em outras dimensões da existência. O autor trata o tema com erudição e através de exemplos de ocorrências da natureza que fazem paralelos sobre o rumo de nossas escolhas. 

Pela Conscienciologia, a compreensão do valor do amanhã pode ser entendida como o senso de prioridade evolutiva: a visão de conjunto sobre as escolhas e consequente utilização dos recursos existenciais para realização da programação existencial.

Neste artigo, abordaremos uma síntese das principais ideias do livro e faremos uma breve análise invexológica.

Imagem do livro O Valor do Amanhã com a intenção de mostrar a capa.
Imagem do livro O Valor do Amanhã

Sobre o Autor do livro O Valor do Amanhã

Eduardo Gianetti (1957-), PhD em Economia pela Universidade de Cambridge e graduado em Ciências Sociais pela USP. Lecionou na USP e no Insper, e foi assessor econômico do partido político brasileiro Rede Sustentabilidade. 

Além de professor e economista, é palestrante e autor de 17 livros. Ganhou o Prêmio Jabuti duas vezes consecutivas com os títulos:

Vícios privados, benefícios públicos? (1993)

As partes & o todo (1995)

Sobre o Livro O Valor do Amanhã

O livro foi lançando em 2005 e é composto por 338 páginas, divididas em 4 partes, cada uma contendo 5 capítulos. Possui 244 referências bibliográficas e índice onomástico. A seguir, abordaremos uma síntese do conteúdo de cada seção, e um breve comentário sobre a relação com a técnica da invéxis.

Parte I: As raízes biológicas dos juros

Uma premissa utilizada por Gianetti é a de que o comportamento é a continuação do metabolismo por outros meios. O autor começa fazendo uma reflexão sobre o princípio da vida, em que a origem da finitude biológica se encontra no início da reprodução sexuada pelos organismos. 

As bactérias, por exemplo, replicam-se em múltiplos através da reprodução assexuada e, portanto, não vivenciam o fim da vida. Com o desenvolvimento das espécies e necessidade de variação genética, o mecanismo de reprodução caminhou para a troca de gametas entre dois gêneros da mesma espécie, e com isso, passou-se a vivenciar a morte biológica. 

Assim, o fenômeno do tempo passou a ser mais demarcado, bem como a juventude e a senescência. Neste sentido, Gianetti aborda a troca intertemporal do organismo, que desconta o futuro trazendo mais vitalidade para a fase juvenil e como consequência, maior debilidade no período da velhice. 

Sendo este fenômeno inerente da natureza, explica também a forma como organizamos o mecanismo dos juros: são o prêmio da espera na ponta credora (pagar agora, viver depois) e o preço da impaciência da ponta devedora (viver agora, pagar depois). 

Outra análise que o autor com exemplos da natureza é sobre a mecânica da troca de folhas e geração de frutos das árvores, exemplificando o timming do trade-off entre retorno e prudência. A capacidade de paciência de aguardar o momento certo faz parte do dilema entre: máxima renda solar ou mínimo risco de sofrer uma geada devastadora? Da mesma forma funciona a análise de risco/retorno que envolvem as decisões que tomamos: a impaciência mata, mas seu excesso também. 

Verificando experimentos feitos com estímulos de recompensas em pombos, Gianetti aborda o conceito de desconto hiperbólico, exemplificado pela seguinte situação:

Dilema 1: Você prefere abrir mão de R$100,00 que receberia agora para receber R$110,00 amanhã? 

Dilema 2: Você prefere abrir mão de R$100,00 que receberia daqui 365 dias para receber R$110,00 daqui 366 dias? 

A maioria das pessoas prefere os R$100,00 na mão e os R$110,00 daqui 366 dias, o que significa que o valor do presente em relação ao futuro aumenta de forma desproporcional à medida que o momento de saciar a necessidade ou desejo se avizinha.

Deste modo, segundo o autor: “O presente foge, o passado é irrecobrável, e o futuro, incerto.” Torna-se essencial, portanto, a troca intertemporal (abrir mão de algo no presente em prol de um bem futuro, ou vice-versa), a fim de manipular a sequência dos eventos no tempo de modo a favorecer a realização de um determinado fim.

Neste ponto, podemos fazer um paralelo com a técnica da inversão existencial com o conceito de maxiplanejamento, que envolve a preparação e organização máxima da vida em prol da realização de assistência pela tarefa do esclarecimento a um maior número de pessoas em alto nível, iniciando desde a juventude. Vale reforçar que tal condição não é natural, por isso a necessidade de se utilizar um recurso artificial – uma técnica – para atingir um resultado acima da média em termos evolutivos no futuro.

Assista no canal da ASSINVÉXIS no YouTube: Live O Valor do Amanhã | Resenha Invexológica

Parte II – Imediatismo e paciência no ciclo de vida

Nesta seção, o autor inicia abordando a crescente abstração do presente vivido em prol do futuro na sociedade atual. Isso ocorre através da racionalidade da vida prática, ou seja, o peso maior sobre aquilo que se faz no presente para ganhar a vida (trabalho) versus aquilo que se efetivamente almeja (satisfação pessoal). 

Com relação ao valor atribuído ao amanhã, a faixa etária exerce uma influência bem definida:

  1. Infância: tíbia faculdade de figurar mentalmente o amanhã (antevisão) e uma baixa capacidade de resistir ao apelo de estímulos e impulsos circunstanciais (autocontrole). 
  2. Juventude: impulsividade + otimismo ingênuo quanto ao amanhã, resultando em desconto do futuro (uso de crédito).
  3. Maturidade: consciência mais definida da finitude, maior realismo e capacidade de articulação de situações de vida. 
  4. Velhice: maior prudência quanto às escolhas e encurtamento do senso temporal de passado ou futuro. 

Próximo à meia idade, as pessoas que tomaram boas decisões colherão os frutos (juros auferidos) ao passo que aquelas que tomaram más decisões arcarão com o ônus (juros devidos) de seus atos, pensamentos e omissões. 

Deste modo, por que não educar os jovens para encarar a própria morte e velhice? Juros que parecem módicos ex ante podem se revelar extorsivos ex post (ou vice versa). E nesse ponto, Gianetti traz uma reflexão bastante relacionada com a proposta da técnica da invéxis, em citação à Afonso X, rei de Castela e Leão no século XIII

bom seria se nos fosse dada a serenidade de velhice para as escolhas de longo alcance da juventude, e na outra ponta, o vigor e a disposição à entrega dos jovens para o grand finale da velhice.

A invéxis propõe justamente a recuperação precoce de lucidez, elevando o nível de maturidade das escolhas com maior autodiscernimento, mais comuns na velhice, para a fase da adolescência, fazendo a inversão dos valores da existência. E paralelo a isso, com as escolhas mais sadias desde cedo, a tendência é que os cuidados com a saúde holossomática conduzam a um período de longevidade lúcida e produtiva, aos inversores na fase da terceira idade.

Adicionalmente, a invéxis provoca uma mudança na forma como se analisa o valor do amanhã, valendo-se também de uma alteração de valor perante as faixas etárias, principalmente derivada da visão multidimensional e multiexistencial da existência, o que proporciona uma análise mais apurada da correção dos erros e ampliação dos acertos frente ao passado-futuro milenar da consciência.

Parte III: Anomalias Intertemporais

Esta seção inicia com uma análise sobre o que é o presente, para deste modo avaliar as distorções na avaliação da relação entre presente e futuro. O presente é intervalo entre o que foi e o que será, e a antecipação perante o que está para acontecer é comportamento essencial de qualquer ser vivo que deseja preservar a vida e bem viver.

Para agir no presente tendo em vista o futuro é necessária a vivência do trinômio antevisão-estratégia-implementação. Para exemplificar, Gianetti aborda o famoso conto da cigarra e da formiga, expondo o contraponto entre a impulsividade derivado do sistema límbico (cigarra) versus o calculismo prudente córtex pré-frontal (formiga). 

A propensão em descontar o futuro também oscila quanto às diversas áreas da vida e as influências na formação da personalidade. No caso, existem dois tipos específicos de anomalia intertemporal que podem variar quanto estes fatores:

  1. Miopia intertemporal: a subestimação do futuro. Uma citação que expressa esta condição é: “O desejado nem sempre é desejável.”
  2. Hipermetropia intertemporal: superestimação do futuro. Uma citação que expressa esta condição é: “Quando se busca perseguir a virtude ao extremo, o vício emerge.”

O ideal é perceber tais condições para não cair em tais armadilhas da percepção do tempo e do valor do amanhã. Além disso, existe um paradoxo entre o uso racional do tempo e o desfrute do mesmo: o tempo é um fluxo que não pode ser poupado ou acumulado. Por este motivo, a máxima tempo é dinheiro (time is money) não tem lógica em si mesma.

A invéxis envolve a compreensão do funcionamento da faculdade de ponderar sobre as escolhas existenciais e suas consequências na cronêmica. Por isso, a importância de se conduzir as diversas demandas existenciais de eito, ou em conjunto, sem deixar nada para trás. 

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Parte IV: Juros, poupança e crescimento

O que determina o grau e a forma da orientação de futuro de uma sociedade? O grau de impaciência (intensidade da urgência) e as oportunidades de investimento (esperar em nome do que e com que fim?).

Nossa sociedade é inteiramente baseada na ideia de futuro, e ninguém poderá sobreviver nela sem levar isso em conta. As sociedades de caçadores-coletores não compartilhavam da noção de amanhã, dependendo mais do coletivismo da tribo para seu consumo e segurança do que do esforço pessoal. Com o advento da sociedade agrária, a psicologia temporal do homem mudou, trazendo as vantagens da espera pelo trabalho instrumental: fazer o que não se deseja afim de se obter os meios para aquilo que se deseja.

A partir da espera, o homem aprendeu a acumular e também que a pressa é inimiga da prosperidade. Para falar sobre o acúmulo de recursos ao longo do tempo, Gianetti aborda 3 tipos de poupança: 

  1. Precaucionaria: a reserva de emergência para intempéries e imprevistos.
  2. Suntuária: as doações para finalidades simbólicas ou não diretamente relacionadas ao sujeito.
  3. Reprodutiva: a utilização dos juros compostos, ao longo do tempo, para gerar renda passiva. 

Por fim, o autor aborda o tema da ética perante as trocas comerciais, levando em conta a psicologia temporal dos envolvidos e o conhecimento das regras, consequências e fins da transação. Reforça, desse modo, a importância da educação e da integridade das instituições para a formação dos cidadãos.

No caso do inversor, é importante dominar tais conceitos para atingir a condição da bilibertação inversora, “a condição indispensável para o inversor existencial, homem ou mulher, alcançar a verdadeira autonomia para executar racionalmente a autoproéxis, constituída por 2 elementos fundamentais: o domínio das energias conscienciais (ECs, Energossomatologia) e a independência econômico-financeira (pé-de-meia, Economia).” (Vieira, 2010).

Para chegar a tal condição, é necessário tanto a constituição dos 3 tipos de poupança citados por Gianetti, quanto da compreensão do uso do tempo e das prioridades para manutenção dos trabalhos de domínio energéticos e saúde somática para uma longevidade lúcida e produtiva.

Considerações Finais do Livro O Valor do Amanhã

O livro O Valor do Amanhã de Eduardo Gianetti fornece uma excelente reflexão sobre o aproveitamento do tempo através das decisões tomadas pela consciência de acordo com as prioridades pessoais. Além disso, fornece conceitos importantes de economia, filosofia, sociologia e psicologia para compreensão do universo dos juros e do valor que pode ser atribuído às escolhas existenciais.

Referências

  1. Giannetti, Eduardo; O Valor do Amanhã: Ensaio sobre a Natureza dos Juros; 338 p.; 20 caps.; 237 refs.; pref.; ono.; 21 x 14 cm; 5a reimp.; Companhia das Letras; São Paulo, SP; 2005; páginas 9 a 277.
  2. Nonato, Alexandre et. al.; Inversão Existencial: Autoconhecimento, Assistência e Evolução desde a Juventude; pref. Waldo Vieira; 304 p.; 70 caps.; 17 E-mails; 62 enus.; 16 fotos; 5 microbiografias; 7 tabs.; 17 websites; glos. 155 termos; 376 refs.; 1 apênd.; alf.; 23 x 16 cm; br.; Associação Internacional Editares; Foz do Iguaçu, PR; 2011; páginas 11 a 253.
  3. VIEIRA, Waldo; Bilibertação Inversora; verbete; In: VIEIRA, Waldo (Org.); Enciclopédia da Conscienciologia; verbete N. 1729 apresentado no Tertuliarium/CEAEC; Foz do Iguaçu, PR. 23.10.10. Disponível em: <http://www.tertuliaconscienciologia.org>. Acesso em: 23.04.21.