A rebeldia é a atitude da pessoa que se opõem a algo, se revolta, desobedece às regras daquilo que considera injusto, errado ou inadequado. O inconformismo é a atitude da pessoa que não se conforma com alguma situação que considera errada, injusta ou inadequada. Para o leitor desatento as duas palavras podem até soar como sinônimos, mas quando estudamos a rebeldia e o inconformismo no contexto da inversão existencial percebemos diferenças profundas entre os dois conceitos.

Enquanto a rebeldia é uma manifestação mais emocional e irrefletida, com expressão muitas vezes associada a atitudes extremas, o inconformismo é uma manifestação mais refletida e ponderada, pautada em atitudes mais sóbrias. A palavra rebeldia possui em sua raiz o termo latino bellum que significa guerra, rebelar-se seria algo como retornar a guerra, retomar o conflito. Já o inconformismo é composto da palavra latina formae, ou seja, forma, formato, aparência, sendo assim, conformar-se diz respeito a adotar uma forma estabelecida enquanto inconformar-se é o oposto, quer dizer não aceitar, não se adequar, não adotar a forma estabelecida.

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Rebeldia, Inconformismo e Invéxis

A técnica da inversão existencial é uma proposta da Conscienciologia que tem relação direta com a manifestação do inconformismo de forma cosmoética, ou seja, considerando a ética sob seu aspecto mais amplo, levando em conta a evolução das consciências e a multidimensionalidade. O inversor existencial é a consciência intrafísica que planeja sua vida desde a juventude buscando otimizar ao máximo sua vida em função da evolução consciencial. A aplicação da técnica se inicia antes dos 26 anos de idade, buscando antecipar o desenvolvimento da maturidade e da assistencialidade, evitando situações castradoras da liberdade e priorizando o mais cedo possível a realização da programação existencial.

Viver a vida humana de acordo com a técnica da invéxis é viver no fluxo oposto ao status quo social, ou no contrafluxo ao cosmos. Aplicar a técnica da invéxis exige inconformismo cosmoético com relação às imaturidades da sociedade intrafísica. O modo padrão de viver em nossa sociedade segue o que na Conscienciologia se chama robotização existencial – ou robéxis – em que a pessoa cresce e se desenvolve para se adequar de maneira irrefletida à um conjunto de normas e condutas sociais que não necessariamente serão positivas para sua evolução consciencial.

A consciência renasce em um novo corpo, cresce e vai para a escola, depois para a faculdade, inicia sua carreira profissional, entra em um relacionamento, constitui uma família, tem filhos, segue um estilo de vida de aquisição de bens e produtos, passa a maior parte do tempo se preocupando em atender as demandas financeiras e da família, ao final se aposenta e dessoma – descarta o soma, sinônimo de morte biológica. Na escola, na faculdade ou no trabalho, ninguém nos pergunta o que queremos fazer com nossas vidas, qual é nosso propósito, o que vamos encontrar na maioria das vezes é pessoas e organizações nos dizendo o que devemos fazer. O inversor existencial não se conforma com esse padrão de vida robotizado imposto pela sociedade, buscando uma forma mais livre e madura de viver, contudo sem se revoltar ou rebelar.

Rebeldia e suas características

Diante das imaturidades da sociedade é comum que jovens assumam a rebeldia enquanto atitude de enfrentamento dessa situação, isso não tem relação com a invéxis. A rebeldia é muito associada à juventude, pois quando se é jovem é natural desejar ser diferente dos adultos, este é um fenômeno comum e faz parte do processo do amadurecimento. Quando o adolescente começa a formar a própria identidade sente a necessidade de se diferenciar dos pais, e de forma mais ampla isso também acontece nas relações entre as gerações. Recentemente o termo inglês cringe entrou na pauta de discussões de muitas pessoas dentro e fora das redes sociais. O termo começou a ser utilizado por adolescentes da geração Z para designar atitudes dos millenial consideradas ultrapassadas e antiquadas.

A discussão em torno do termo cringe é um exemplo banal de como as disputas entre as gerações acontecem e no século XXI estão se tornando uma disputa entre idades cada vez mais próximas. Contudo o choque entre gerações já teve situações e contextos muito diversos ao longo da história, em especial no Século XX. O surgimento do rock e do movimento hippie, a manifestação dos estudantes na Praça da Paz Celestial na China em 1989, os movimentos estudantis em maio de 1968 na França, as jornadas de junho de 2013 no Brasil, são alguns de vários exemplos de situações em que jovens se opuseram contra a situação vigente em suas sociedades.

A rebeldia juvenil pode ter diferentes formas de ser manifestada pelo jovem que podem ser agrupadas em três grandes tipos: 

1. Rebeldia Agressiva

É a atitude rebelde mais extrema, quando o indivíduo que se rebela utiliza a violência física e verbal para atacar o objeto de sua revolta. Engloba, por exemplo, desde os jovens que entram em conflito com os pais e utilizam a agressão física e verbal para expressar essa revolta, até os jovens marginalizados que expressam sua revolta contra a sociedade por meio da violência e da criminalidade.

2. Rebeldia Transgressiva

Outra forma de manifestação de rebeldia juvenil é a que utiliza a transgressão das regras para a expressão da revolta. Por exemplo, temos o jovem que desobedece a ordem dos pais para tentar demonstrar uma forma deslocada de autonomia, até os jovens que praticam racha, utilizam drogas, depredam patrimônio público como forma de expressar sua revolta. Os black blocks presentes nos protestos de rua no Brasil e no mundo são um exemplo de rebeldia transgressiva.

3. Rebeldia Regressiva

Há também aqueles que manifestam a rebeldia por meio da fuga, característica da rebeldia regressiva. Voltando ao exemplo clássico do jovem que se revolta com alguma imposição feita pelos pais, diferente da rebeldia transgressiva e agressiva em que ocorre um enfrentamento direto da autoridade parental, no caso da rebeldia regressiva o jovem foge do confronto se isolando, cortando os laços de comunicação e convívio, as vezes até mesmo fugindo de casa. A rebeldia regressiva é típica dos jovens que buscam a fuga da realidade por meio das drogas e das comunidades alternativas, muito presente no movimento hippie dos anos 70. 

Nenhuma destas formas de rebeldia apresentadas anteriormente tem relação com a prática da inversão existencial. Se o jovem inversor tem algum tipo de indignação com a postura dos pais, ele não assume atitude agressiva, pelo contrário, ele busca posicionar sua opinião pelo diálogo. Quando o inversor se depara com alguma regra injusta ou inadequada ele não a transgrede, mas a questiona, assim como questiona a tudo e a todos, inclusive a si mesmo. Ao se deparar com uma situação que o desagrada não assume a postura de fuga típica da rebeldia regressiva, pelo contrário, encara a situação de frente posicionando seu ponto de vista de forma madura.

Rebeldia Juvenil e Porão Consciencial

Muitas das características da rebeldia estão associadas ao porão consciencial. Este conceito diz respeito ao período de desenvolvimento do jovem em que sua manifestação tem uma predominância de seu lado mais instintual, agindo de forma egocêntrica, agressiva e promíscua. Quando a consciência renasce em um novo corpo precisa se adaptar ao novo veículo biológico, seu cérebro ainda está incompleto e só terá condições de se manifestar de maneira plena na adultidade. Por conta deste período de adaptação da consciência ao corpo biológico, os aspectos mais primitivos e instintuais da consciência pressionam a manifestação de seus aspectos mais evoluídos.

Assim, por vezes o jovem pode até ter boa intenção quando fica indignado, por exemplo, com a situação político-social do país, mas erra ao se revoltar com a situação e assumir uma postura que envolva alguma das três formas de manifestação da rebeldia – por exemplo, o grupo de jovens feministas chamado Femen que busca chocar o público em seus protestos utilizando-se do nudismo e de linguagem agressiva, mas sem propor formas concretas de solucionar os problemas que apontam.

Acontece que o discernimento nesses casos fica de lado e as emoções prevalecem, dando espaço para a manifestação do porão consciencial. A revolta contra os pais ou a sociedade acaba sendo, em muitos casos, válvula de escape para as insatisfações pessoais mais íntimas, da pessoa com ela mesma.

Diante deste fato, é muito comum que a rebeldia juvenil seja utilizada como ferramenta de manipulação dos jovens. Grupos políticos, movimentos sociais, a indústria da moda, do cinema, e até mesmo o militarismo se valem do desejo de alguns jovens de transformarem a realidade à força para manobrá-los de acordo com seus interesses. O exemplo clássico disto é a utilização da indústria da moda da figura de Che Guevara, o revolucionário marxista, médico e guerrilheiro argentino que participou da revolução comunista em Cuba, como figura de estampa para vender camisetas.

Para superar o porão consciencial, o jovem deve investir no desenvolvimento da sua maturidade, autocrítica e dos atributos mentais mais evoluídos. Deste modo, em especial pela aplicação da invéxis, é possível lidar com situações conflituosas desde a juventude sem manifestar revolta e rebeldia, pelo contrário, assumindo uma postura mais madura de inconformismo cosmoético.

Evitações da Invéxis e o Inconformismo

A aplicação da técnica da invéxis envolve a busca pela antecipação de conquistas evolutivas e a evitação de situações castradoras da liberdade e da evolução. O jovem inversor busca desenvolver a criticidade social e a autocrítica para poder avaliar aquilo que é mais maduro do ponto de vista da evolução consciencial seja nas próprias atitudes, seja naquilo que envolve a cultura em que está inserido.

Quando o jovem inversor confronta seus objetivos pessoais com o modo de vida da sociedade, percebe que há incompatibilidades entre o que considera mais evolutivo e aquilo que é comum, banal e popular entre as pessoas de seu convívio. Diante destas situações a inversora e o inversor não se conformam, não cedem a forma padrão de viver das pessoas, e tão pouco se revolta diante da situação, assume postura de inconformismo cosmoético buscando dar exemplo de maturidade e busca o melhor para si e para todos.

Eis a seguir alguns exemplos de situações sociais contra as quais os inversores adotam o inconformismo cosmoético:

Casamento

O casamento civil e religioso é uma convenção social construída ao longo dos séculos e que tem em sua origem os interesses contratuais e de propriedade. O casamento era e continua sendo a forma de assegurar a distribuição de bens e patrimônio entre as famílias, além de ser uma forma de controle da família sobre o casal. O filme História de um Casamento da Netflix é um bom exemplo de como é difícil desatar os nós contratuais que envolvem um casamento civil, quando o relacionamento acaba. O que deveria ser algo a ser resolvido apenas pelo casal acaba envolvendo outras pessoas como advogados e familiares, diminuindo a liberdade dos componentes do casal de decidirem sobre seu futuro.

Na inversão existencial a proposta é a adoção da dupla evolutiva, que dispensa o casamento civil e religioso, cabendo apenas ao casal decidir sobre o que é melhor sobre o próprio relacionamento. O mais importante na dupla evolutiva é o apoio mútuo do casal na evolução de cada um e na realização da programação existencial de ambos.

Os inversores não se conformam com a convenção social do casamento, que hoje é uma indústria bilionária, mas também não se rebelam contra este fato saindo às ruas contra o casamento, pelo contrário, dão o exemplo para quem quiser ver que é possível constituir um relacionamento maduro, duradouro e produtivo sem a necessidade de contratos e cerimônias.

Filhos

Os movimentos de casais sem filhos se tornaram mais comuns na última década, por exemplo o Childfree que defendem a opção das pessoas por não ter filhos. Contudo, ainda há uma grande pressão social sobre os casais que fazem essa opção, principalmente sobre as mulheres e nas faixas acima de 30 anos.

Para a maioria das pessoas ter filhos não é uma opção, mas algo inevitável, como se fizesse parte do fluxo natural da vida. No entanto, ter filhos ou não é uma opção, e no contexto da invéxis não ter filhos é a única opção. A maternidade e paternidade são condições que ocupam um grande espaço na vida de quem as assume, pois ter filhos é comprometer-se com a criação e a formação de uma pessoa por pelo menos 20 anos.

Os inversores existenciais optam por não terem filhos para se dedicarem à prática da assistência como o voluntariado, a docência e a escrita de obras libertárias. A preocupação de muitos pais é apenas egocêntrica, de projetar seus desejos e frustrações nos filhos, tornando-os versões de si mesmos. Os inversores não se conformam com essa forma de pensar e agir, mas não se revoltam nem se rebelam contra quem tem filhos ou contra as crianças, mas optam por dedicar o tempo e energia para a assistência às outras pessoas.

Drogas

A sociedade tem uma forma ambígua de tratar as drogas. Algumas delas como o álcool e o tabaco são social e legalmente aceitos, enquanto outras como maconha, cocaína e êxtase são proibidas. O caso particular da maconha é ainda mais ambíguo uma vez que seu uso, apesar de proibido, hoje é muito comum e difundido, inclusive declarado em redes sociais por celebridades e defensores da droga.

A cultura das drogas envolve a ideia de que a pessoa pode aproveitar seus efeitos para relaxar, se soltar, aproveitar um momento entre amigos, e até vivenciar fenômenos parapsíquicos. Contudo não levam em conta seus efeitos redutores do discernimento. Os inversores existenciais priorizam a lucidez, ou seja, estarem sempre o mais lúcidos possível para o que estão percebendo, sentindo e pensando, sem se deixar manipular.

Os inversores não se conformam à cultura das drogas vigente em nossa sociedade, mas não se rebelam contra a cultura das drogas presente em nossa sociedade, ao invés disso buscam dar o exemplo de maturidade vivendo uma vida sem drogas e de busca pela ampliação da lucidez e do discernimento nas escolhas pessoais.

Dogmatismo

O dogma pode assumir diversas formas em nossa sociedade, o mais comum é o religioso, mas ele também pode ser político-ideológico, nacionalista-militar e até materialista-científico. A pessoa dogmática é aquela que segue um sistema de crenças que não podem ser questionadas, como uma verdade imutável e absoluta.

Na religião cristã, a divindade de Jesus Cristo não pode ser questionada, nem mesmo suas atitudes imaturas podem ser apontadas. Na política, a ideologia marxista é tratada como inquestionável por muitas pessoas, assim como o capitalismo por parte de outras. A retórica belicista, o serviço militar obrigatório, e tantas outras formas de utilizar os jovens como buchas de canhão são inquestionáveis na maioria das sociedades. Na ciência, a ideia de que a realidade é apenas material, desconsiderando as múltiplas dimensões e a sobrevivência da consciência após a morte do corpo físico, é um dogma inquestionável na maioria das universidades mundo afora.

O inversor não se conforma a nenhum destes dogmas, contudo não se revolta nem se rebela a qualquer um deles, mas procura dar o exemplo de liberdade de pensamento. O inversor adota a postura do omniquesitonamento, questiona tudo, até a si mesmo, buscando a máxima compreensão da realidade possível por meio das verpons, ou seja, as verdades relativas de ponta. Nenhuma verdade é absoluta, ou inquestionável. 

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Revolução Consciencial

A rebeldia presente entre os jovens de tempos em tempos é o motor de revoltas e revoluções, na tentativa de mudar a sociedade para melhor. Contudo, quando movidos pela revolta, os jovens estão embriagados pelos sentimentos mais primitivos, frutos do porão consciencial. Assim, surgem as revoluções sociais com pequenos avanços, mas prejuízos enormes, de vítimas e de interprisões grupocármicas.

A revolução proposta pela Conscienciologia e Invexologia é uma revolução diferente, parte da responsabilidade de o indivíduo mudar a realidade transformando a si mesmo para melhor. Uma sociedade mais evoluída e madura se constrói com indivíduos mais maduros, e a conquista da maturidade é uma escolha individual. A revolução consciencial começa pela consciência que confronta as próprias autocorrupções antes de combater as corrupções alheias.

Referências:

  1. Cardoso, Alba; Dicionário de Emoções, Sentimentos e Estados de Ânimo; 126 p.; Epígrafe; Foz do Iguaçu, PR; 2018; página 99.
  2. Lopes, Diego; Rebeldia Juvenil e Inversão Existencial; Artigo; Gestações Conscienciais: Estudos Sobre Inversão Existencial, Vol. VI; N. 1; 2016; páginas 210 a 221.
  3. Nonato, Alexandre; et al.; Inversão Existencial: Autoconhecimento, Assistência e Evolução desde a Juventude; pref. Waldo Vieira; 304 p.; 70 caps.; 17 E-mails; 62 enus; 16 fotos; 5 microbiografias; 7 tabs.; 17 websites; glos. 155 termos; 376 refs.; 1 apênd.; alf.; 23 x 16 cm; br.; Associação Internacional Editares; Foz do Iguaçu, PR; 2011; páginas 22, 78, 136, 149 e 152.
  4. Savage, Jon; A Criação da Juventude: Como o Conceito de Teenage Revolucionou o Século XX; 558 p.; 30 caps.; Rocco; Rio de Janeiro, RJ; 2009; páginas 49 a 64, e 107 a 117.